Terça-feira, Maio 22, 2012

Autor revela os bastidores do livro “Memórias de uma Guerra Suja”

À Carta Maior, Rogério Medeiros relembra o primeiro contato com o ex-delegado do Dops do Espírito Santo, que culminou na publicação de “Memórias de uma Guerra Suja”, em parceria com Marcelo Netto. O livro é composto por uma série de depoimentos em primeira pessoa, nos quais Cláudio Antônio Guerra, hoje com 71 anos, admite participação em crimes na ditadura, além de revelar nomes que compunham os órgãos responsáveis pela repressão.

Isabel Harari

São Paulo – “Ele estava muito magro, esquelético. Na maca do hospital, vestindo o uniforme presidiário me disse que queria falar tudo. Contou que era outro homem, um novo Cláudio Guerra, e queria entregar sua vida pra eu escrever. Tomei um susto”. O jornalista Rogério Medeiros relembra o primeiro contato com o ex-delegado do Departamento de Ordem Política Social (DOPS) do Espírito Santo, que culminou na publicação do livro “Memórias de uma Guerra Suja” (Editora Topbooks, R$ 44), em parceria com Marcelo Netto.

O livro é composto por uma série de depoimentos em primeira pessoa nos quais Cláudio Antônio Guerra, hoje com 71 anos, admite participação em crimes cometidos nas décadas de 70 e 80, além de revelar nomes que compunham os órgãos de repressão no período militar. O ex-delegado confessa, por exemplo, que incinerou 11 corpos de militantes políticos em uma usina de cana-de-açúcar no norte do Rio de Janeiro em 1973, entre eles o de Ana Rosa Kucinski e David Capistrano. Admite que esteve na reunião em que foi determinada a morte do delegado do Dops de São Paulo, Sérgio Fleury em 1979, e sua participação no atentado contra o show de 1º de maio no Pavilhão do Riocentro, dois anos depois. Também revela sua participação no assassinato do jornalista Alexandre Von Boungarten e denuncia outros projetos que visavam a implantação definitiva da ditadura militar no Brasil.

Ainda na década de 70, Rogério Medeiros fez uma vasta investigação sobre Cláudio Guerra: desde sua trajetória como oficial de justiça no interior do Espírito Santo até a entrada na polícia e sua consolidação com um dos mais importantes homens do Dops. Foram publicadas uma série de reportagens no Jornal do Brasil que desmistificaram a imagem de Guerra, que até então era visto como “defensor da ordem e dos bons costumes”. Foi revelada sua ligação com o crime organizado, a participação em uma ação que culminou na morte de 43 pessoas, entre trabalhadores e lideranças rurais, e acusações de queima de arquivos públicos. “A matéria que escrevi para o JB colocava em jogo essa imagem de justiceiro, combatente do crime. E aí ele cai na esparrela. O governador Max Mauro fez o inquérito e entregou à polícia federal. Ele [Guerra] surge como chefe do crime organizado e em seguida vai preso”, conta Medeiros.

A condenação de Guerra também advém de sua relação estreita com o assassinato do bicheiro Jonathas Borlamarques de Souza em 1982, além de sua ligação com a prática do jogo ilegal. O ex-delegado do Dops é acusado, ainda, de matar sua primeira esposa e ex-cunhada em 1980, crime pelo qual ele alega inocência até hoje e cuja condenação continua em aberto.

Após sete anos na prisão, Guerra é transferido para uma casa de repouso, onde cumpre liberdade condicional. “Na cadeia eu passei a conhecer Jesus. Ao me aprofundar no conhecimento da palavra do Senhor, vi a necessidade de caminhar para além do perdão. E assim resolvi vir a público revelar todos os meus atos quando trabalhei em favor do regime militar. Aquilo que para mim era matar um inimigo ficou claro, com Jesus, não passar de crime hediondo, que a partir de agora todos vão conhecer. (…) Passei a acreditar que poderia ter uma vida nova, na companhia de deus. Agora minha luta é esta: ter uma vida normal. Estou em paz”. Hoje Guerra é pastor da igreja Assembléia de Deus em Vitória (ES).

A confecção do livro levou cerca de três anos. Embates e atritos ocorreram antre os jornalistas e o relator, consequência da dificuldade de apuração dos fatos, da relutância em resgatar uma memória tão antiga e o receio de denunciar nomes ainda em voga no cenário político brasileiro. “Ou diz tudo ou não diz nada”, essa foi a frase proferida por Medeiros diante dos temores de Guerra. O jornalista também comenta o fato de o livro ser narrado em primeira pessoa, foco de discussão entre os profissionais no processo de composição das memórias: “Ele tinha que falar em primeira pessoa, ele tinha que dizer que matou. Não adianta nada nós escrevermos que ele fez isso, fez aquilo… Isso para poder ser coerente até com seu discurso de que está deixando tudo isso pra trás e entrando em outra vida ”.

A ligação entre Guerra e Medeiros embasa-se em critérios estritamente profissionais, diz o jornalista. Ele conta que em todos os encontros manteve uma distância de seu entrevistado, tratando-o como um “criminoso”, fato que também foi motivo de impasses durante a organização do livro. “Eu não estou aqui para defender o Cláudio. Eu fiz o meu papel de pegar os fatos e averiguar para ver se eles tinham mesmo acontecido. Eu não tenho uma relação próxima com ele. Eu trabalhei com ele. Depois da publicação do livro nós não mantemos contato”.

Marcelo Netto, que segundo a editora do livro, a Topbooks, recusa-se a dar entrevistas, construiu outro tipo de relação com seu entrevistado. Na apresentação do livro escreve: “Em nossas longas conversas pessoais e pelo Skype tentei entender o que ia dentro da sua cabeça. Fustigava sua memória, mas procurava compreender a sua fé e o que o motivava a falar depois de tanto tempo. (…) Prometi que, na medida do possível, vou estar ao seu lado na caminhada que começa com a publicação do seu depoimento”.

Na mesma apresentação, Netto faz menção ao jornal Folha de S. Paulo e às Organizações Globo, bem como a seus respectivos dirigentes, Paulo Frias e Roberto Marinho, agradecendo-os pela importância que tiveram na sua formação profissional e revelando sua relação íntima com ambos. As duas páginas nas quais o jornalista escreve seu agradecimento também contém trechos em que o autor pede, de certa forma, desculpas pelo conteúdo do livro.

Há, nos relatos de Guerra, partes em que revela a participação da Folha em atentados contra militantes políticos em São Paulo e a presença constante de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, chefe de direção de programação e produção da TV Globo, na sauna em que os militares e simpatizantes do regime se encontravam para planejar ações que visavam a implantação definitiva da ditadura no Brasil.

A quebra do silêncio de Guerra, para Netto, representa um importante passo para a consolidação da democracia no país. “Os militares não devem ter medo de conviver com os erros de um passado que acabou levando, por caminhos tortos, a um Brasil melhor”.

Ex-militares e componentes da Comunidade de Informação, “conjunto de órgãos estatais responsáveis pela segurança interna do país e pelo combate à subversão”, citados por Guerra, alegam que os relatos do ex-delegado são falaciosos. O coronel Juarez e o coronel Ustra anunciaram publicamente que não o conhecem. Mas Guerra respondeu que está disposto a enfrentá-los na Comissão da Verdade.

A ausência de seu nome em listas de entidades de defesa dos direitos humanos explicaria-se porque ele não era considerado um torturador, e sim um matador. Outro fator que explicaria a inexistência do nome de Guerra nesses documentos é o uso frequente de codinomes como Dr. Reinaldo e Stanislau Meirelles. Muitos afirmam, porém, que o depoimento é fruto de um surto de loucura. Medeiros desmente: “Ele está completamente consciente do que está fazendo. Nos três anos que convivemos isso ficou claro pra nós ”.

Segundo Guerra, foi a fé reavivada na cadeia o motivo pelo qual revelou seu passado publicamente. “Cláudio quer deixar o passado pra trás e entrar em uma vida religiosa. Ele quer fazer isso. Não estou dizendo que é possível”, afirma Medeiros. O jornalista, no entanto, não acredita que o discurso do ex-delegado seja pautado apenas por motivos religiosos: “Por renome. Ele começou a contar tudo porque passou a conviver estritamente com a mídia. De repente resolveu fazer carreira como personalidade, como pastor. Ele quis sair fora do passado. Ele não quer se situar como se fosse um homem em busca de perdão, que tivesse arrependido. É assim: a vida para trás é essa e daqui pra frente eu vou ter outra vida ”.

Guerra saiu da casa de idosos em Vitória, onde estava hospedado, e recusa-se a dar entrevistas. Afirmou que só vai aparecer em público depois que for à Comissão da Verdade.

Carta Maior

Publicado por AFIN em 02:20:42 | Link | Sem Comentários »

Kucinski: ‘Jorrou dinheiro empresarial à repressão política’

O depoimento de Claudio Guerra, em “Memórias de uma guerra suja”, detalha o envolvimento de empresários com a ditadura. Esse é o aspecto que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski. Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e integram a lista dos desaparecidos. Bernardo atesta: “Está tudo lá: empresas como Gasbras, White Martins, Itapemirim, grupo Folha e o banco Sudameris; o dinheiro dos empresários jorrava para custear as operações clandestinas e premiar bandidos com bonificações generosas”.

Saul Leblon

São Paulo – O livro ‘Memórias de uma guerra suja’, depoimento do ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra, a Marcelo Netto e Rogério Medeiros, foi recebido inicialmente com certa incredulidade até por setores progressistas. Há revelações ali que causam uma rejeição visceral de auto-defesa. Repugna imaginar que em troca de créditos e facilidades junto à ditadura, uma usina de açúcar do Rio de Janeiro tenha cedido seu forno para incinerar cadáveres de presos políticos mortos nas mãos do aparato repressivo.

O acordo que teria sido feito no final de 1973, se comprovado, pode se tornar o símbolo mais abjeto de uma faceta sempre omitida nas investigações sobre a ditadura: a colaboração funcional, direta, não apenas cumplicidade ideológica e política, mas operacional, entre corporações privadas, empresários e a repressão política. Um caso conhecido é o da ‘Folha da Tarde’, jornal da família Frias, que cedeu viaturas ao aparato repressivo para camuflar operações policiais.

Todavia, o depoimento de Guerra mostra que nem o caso da usina dantesca, nem o repasse de viaturas da Folha foram exceção. Esse é o aspecto do relato que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski, que acaba de ler o livro. Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e desde então integram a lista dos desaparecidos políticos brasileiros. Bernardo atesta:’ Esta tudo lá: empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha e o banco Sudameris, que era o banco da repressão; o dinheiro dos empresários jorrava para custear as operações clandestinas e premiar os bandidos com bonificações generosas’.

No livro, Claudio Guerra afirma que Ana Rosa e Wilson Campos – a exemplo do que teria ocorrido com mais outros oito ou nove presos políticos -tiveram seus corpos incinerados no imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no município fluminense de Campos.

A incredulidade inicial começa a cair por terra. Familiares de desaparecidos políticos tem feito algumas checagens de dados e descrições contidas no livro. Batem com informações e pistas anteriores. Consta ainda que o próprio governo teve acesso antecipado aos relatos e teria conferido algumas versões, confirmando-as. Tampouco o livro seria propriamente uma novidade para militantes dos direitos humanos que trabalham junto ao governo.

O depoimento de Guerra, de acordo com alguns desses militantes, teria sido negociado há mais de dois anos, com a participação direta de ativistas no Espírito Santo. A escolha dos jornalistas que assinam o trabalho – um progressista e Marcelo Netto, ex-Globo simpático ao golpe de 64 – teria sido deliberada para afastar suspeitas de manipulação. Um pedido de proteção para Claudio Guerra já teria sido encaminhado ao governo. Sem dúvida, o teor de suas revelações, e a lista de envolvimentos importantes, recomenda que o ex-delegado seja ouvido o mais rapidamente possível pela Comissão da Verdade.

Bernardo Kucinski, autor de um romance, ‘K’, – na segunda edição – que narra a angustiante procura de um pai pela filha engolida no sumidouro do aparato de repressão, respondeu a quatro perguntas de Carta Maior sobre as “Memórias de uma Guerra Suja”:

Carta Maior – Depois de ler a obra na íntegra, qual é a sua avaliação sobre a veracidade dos relatos?

Kucinski – As confissões são congruentes e não contradizem informações isoladas que já possuíamos. Considero o relato basicamente veraz, embora claramente incompleto e talvez prejudicado pelos mecanismos da rememoração, já que se trata da confissão de uma pessoa diretamente envolvida nas atrocidades que relata.

CM – Por que um depoimento com tal gravidade continua a receber uma cobertura tão rala da mídia? Por exemplo, não mereceu capa em nenhuma revista semanal ‘investigativa’.

Kucinski – Pelo mesmo motivo de não termos até hoje um Museu da Escravatura , não termos um memorial nacional aos mortos e desaparecidos da ditadura militar, e ainda ensinarmos nas escolas que os bandeirantes foram heróis; uma questão de hegemonia de uma elite de formação escravocrata.

CM – Do conjunto dos relatos contidos no livro, quais lhe chamaram mais a atenção?

Kucinski – O episódio específico que mais me chamou a atenção foi a participação direta do mesmo grupo de extermínio no golpe organizado pela CIA para derrubar o governo do MPLA em Angola, com viagem secreta em avião da FAB.

CM – O que mais ele revela de novo sobre a natureza da estrutura repressiva montada no país, depois de 64?

Kucinski – Fica claro que as Forças Armadas montaram grupos de captura e extermínio reunindo matadores de aluguel, chefes de esquadrões da morte, banqueiros do jogo do bicho, contrabandistas e narcotraficantes. Chamaram esses bandidos e seus métodos para dentro de si. Esses criminosos, muitos já condenados pela justiça, dirigidos e controlados por oficiais das Forças Armadas, a partir de uma estratégia traçada em nível de Estado Maior, executavam operações de liquidação e desaparecimento dos presos políticos, o que talvez explique o barbarismo das ações. Também me chamou a atenção a participação ampla de empresários no financiamento dessa repressão, empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha – que emprestou suas peruas de entrega para seqüestro de ativistas políticos -, e o banco Sudameris, que era o banco da repressão; dinheiro dos empresários jorrava para custear as operações clandestinas e premiar os bandidos com bonificações generosas . Está tudo lá no livro.

Carta Maior

Publicado por AFIN em 02:16:05 | Link | Sem Comentários »

CACHOEIRA: O CRIME E A DIREITA POLÍTICA

A lista de sordidez e atrocidades incluída no livro ‘Memórias de uma guerra suja’, do ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra, converge para um denominador normalmente pouco pesquisado e menos ainda divulgado pela mídia conservadora: a absoluta ausência de escrúpulos da direita nativa em recorrer à expertise do crime comum para perseguir, atacar e, se possível, eliminar fisicamente, sem pistas, a militância de esquerda que resistiu à ditadura militar.

Ao permanecer resguardada da opinião pública essa simbiose entre bandidos e direita política criou raízes e se reciclou no ambiente democrático. A truculência assumiu novas formas para persistir no mesmo objetivo de eliminar o adversário e suas idéias.

A principal revista semanal brasileira, cuja especialidade editorial é articular campanhas difamatórias contra movimentos sociais, partidos e lideranças populares, ademais de ter sido o auto-falante da tentativa de transformar o obscuro episódio denominado de ‘mensalão’ em clamor pelo impeachment do Presidente Lula, agora se sabe, arrendou uma quadrilha criminosa para ‘apurar’ pautas de seu interesse. A oportunidade para exorcizar essas práticas na vida política nacional está nas mãos dos integrantes da CPI do Cachoeira e daqueles da recém-criada Comissão da Verdade.

Carta Maior

Publicado por AFIN em 02:12:12 | Link | Sem Comentários »

Segunda-feira, Maio 21, 2012

SEGUNDA-FEIRA DOMINICAL

Dia das boas almas

# Para conseguir dados mais concretos sobre a violação dos direitos humanos ocorrida no período da ditadura militar que ocorreu no Brasil entre os anos de 1964 e 1985, a Comissão da Verdade vai buscar informações junto aos comitês estaduais da memória e da verdade. Estes comitês vão junto à sociedade explicar o que é a Comissão da Verdade, buscar documentos e analisar depoimentos.

Para José Cavalcante Filho, um dos membros da comissão os trabalhos só poderão ter mais eficácia com a ajuda desses comitês.

“Se a gente conseguisse que todos os estados fizessem isso, a gente poderia ajudar. Quer quebrar sigilo? A gente ajuda. Se a gente conseguir conquistar a confiança deles, eles vão apurar e a gente só vai filtrar”, disse José Cavalcante.

De acordo com Gilney Viana, coordenador-geral do Projeto Direito à Memória e à Verdade, essa organização está entrando em uma nova fase com fechamento de parcerias com sindicatos e entidades de classe como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Central Sindical e Popular (Conlutas) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag). Essas entidades vão criar comissões para resgatar a verdade do que ocorreu com os trabalhadores durante a ditadura militar.

“A minha intenção é mobilizar essas entidades. Eles têm dinheiro, têm equipes e estão interessados em apurar os fatos”, disse Viana.

Criada no ano de 2011, pela Secretaria dos Direitos Humanos (SDH) a Rede dos Observatórios do Direito à Verdade, Memória e Justiça das Universidades Brasileiras, composta por universidades públicas e federais, e que é ligada ao Arquivo Nacional, é outra entidade que vai ajudar a Comissão da Verdade. Ela vai ampliar pesquisas acadêmicas sobre as lutas políticas ocorridas no Brasil durante o regime ditatorial. As pesquisas da Rede terá o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

“No ambiente acadêmico, temos poucas pesquisas sobre isso. Com essa rede, vamos fortalecer a pesquisa nas áreas de direito, história e ciências políticas”, afirmou Viana.

Tentar construir relações de compromissos com entidades variadas que tratam das questões dos direitos humanos na concepção histórica é uma profícua decisão da Comissão da Verdade. Essas entidades poderão ter consigo informações que a Comissão da Verdade não detém, e que talvez jamais fosse ter acesso.

# José Anselmo dos Santos, vulgo Cabo Anselmo, ex-marinheiro conhecido como o maior delator do período da ditadura a ponto de denunciar sua namorada, Soledad Viedma, às forças de repressão que a vitimaram violentamente, assim como à outros militantes, terá seu pedido de anistia julgado nessa terça-feira, dia 22. Cabo Anselmo entrou com o processo de indenização no ano de 2004.

O caso do Cabo Anselmo tem um teor puramente desprezível. Ele durante a ditadura participou de uma rebelião militar na Marinha simulando ser um militante dos direitos democráticos, quando só estava ensaiando a performance desprezível que iria desempenha durante a ditadura militar. Preso durante a rebelião na Marinha, ele conseguiu fugir para Cuba e treinar guerrilha. Chegando ao Brasil foi preso no início de 70, mas uma negociação com o militares em troca de sua liberdade passou a desempenhar seu verdadeiro papel ignóbil de delator.

Se mostrando de esquerda ele conseguiu se infiltrar em grupos que lutavam contra o regime e colher informações para depois entregar aos militares. O que o transformou em um grande delator protegido pelas forças de repressão. Com sua mente pervertida ele se jacta de ter delatado mais de 200 militantes para os militares da ditadura. Já confessou em público que não carrega qualquer arrependimento pelo que fez. Uma afirmação verdadeira já que mesmo que se arrependesse de nada iria mudar a história do Brasil. Os presos continuariam presos, os torturados continuariam torturados, e os assassinados continuariam assassinados. Para esse tipo psicopático não há arrependimento.

Hoje não há no Brasil quem não conheça a desprezível fama de Cabo Anselmo. Sua fama é tamanha que seu nome passou a ser usado como indicativo de dedo duro em qualquer lugar que haja suspeita de delação.

E foi exatamente por força de sua patologia que Cabo Anselmo teve o desplante de entrar com processo de pedido de indenização na Comissão de Anistia. Mas a comissão que entende muito bem de patologia política encontra-se propensa a negar seu pedido. O relator do processo é Nilmário Miranda, ex-preso político e ex-ministro dos Direitos Humanos do primeiro governo Lula.

# Tendo até o dia 25 como data para sancionar ou vetar, parcial ou totalmente, o texto do Novo Código Florestal, a presidenta Dilma Vana Rousseff, depois de três reuniões durante a semana passada com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, encontrou-se com ministros para tratar do assunto.

A presidenta se reuniu com os ministros Pepe Vargas, do Desenvolvimento Agrário, Mendes Ribeiro, da Agricultura; Luiz Inácio Adams, da Advocacia-Geral da União, e as ministras Gleise Hoffmann, da Casa Civil; Izabella Teixeira, do Meio Ambiente; e Helena Chagas, da Comunicação Social e conversaram sobre sua decisão em relação ao Código Florestal.

O governo não concordou com a votação do Código Florestal decidida pela Câmara dos Deputados. O Código Florestal da Câmara é contra as perspectivas do governo e dos ambientalistas que apresentaram um texto, aprovado pelo Senado, de aceitação pela sociedade. Diante da alteração provocada pelos deputados no texto, que deu mais vantagens aos ruralistas, várias entidades no Brasil iniciaram manifestações pedindo para que a presidenta vete os trechos que são contrárias aos interesses da sociedade. Das manifestações saiu o movimento “Veta, Dilma!” Um anseio popular.

O que a sociedade espera que Dilma vete são os pontos defendidos pelos ruralistas como anistia para os desmatadores e a redução dos parâmetros de proteção de áreas de preservação permanente (APP). Veta, Dilma!

Enquanto isso, em São Paulo, na Praça do Monumento às Bandeiras, 1,5 mil militantes realizaram uma manifestação organizada pela Fundação SOS Mata Atlântica fortalecendo o coro para que Dilma vete o Código Florestal. Entretanto, a palavra de ordem não foi “Veta, Dilma!”, mas “Veta tudo, Dilma!”.

O deputado Ivan Valente (PSOL/SP), um dos políticos participantes disse que as mudanças impostas no texto pelos ruralistas prejudicam nossa biodiversidade.

“As mudanças não só prejudicam a nossa biodiversidade como têm por trás uma visão agrário-exportadora, que visa ao lucro imediato e reprimariza a economia do país.

O governo brasileiro deu espaço para crescer uma bancada ruralista que atua muitoas vezes contra o interesse nacional. Ou a Presidência veta esse projeto, ou cede aos ruralistas e à governabilidade que vai levar o País para trás”, observou Ivan Valente.

# Daí que o Peladão Brasileiro mostrou sua cara. Novidades? Algo a ser visto com prazer? Perspectivas alvissareiras? Nada! Tudo do mesmo jeito que foi ano passado, ou nos anos passados. Os cupins agradecem ao Clube dos 13, e confraria.

O Mengão e o Sport mostraram essa digna realidade cupinhante que foi aplaudida pelas outras pelas realizadas nas outras praças pernadas. O Fogão, time humilhado e ofendido no peladão carioca e na Copa Brasil, empurrou 4 a 2 no Sampa, mas o contrário poderia ser também verdadeiro.

Enquanto isso, a Liga dos Campeões é conquistada pelo mais doloroso e seco peladão retranqueiro do mundo. Chelsea, com um antifutebol espectral faz uma conquista que não merece reconhecimento, pois seria reconhecer a mediocridade como objetivo da Liga.

Parabéns aos outros times que não conquistaram o campeonato, mas foram de grandeza que o time inglês nem de longe tem.

 

 

Publicado por AFIN em 03:17:54 | Link | Sem Comentários »

Sexta-feira, Maio 18, 2012

PARLAMENTARES SE UNEM PARA DEFENDER O JORNALISTA POLICARPO DA VEJA AMIGO ÍNTIMO DE CACHOEIRA

O jornalista Policarpo Junior, diretor da sucursal da revista nazifascista Veja, em Brasília, que aparece em mais de 200 gravações da Operação Monte Carlo realizada pela Polícia Federal, em conversas íntimas com o mafioso Carlos Augusto Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira, vem conseguindo marcar bons pontos na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI).

O senador e ex-presidente, Collor de Mello, que vem pedindo juntamente com outros parlamentares que o jornalista conspirador seja convocado pela CPMI para prestar depoimento vem mostrando uma face cruel da comissão. Alguns parlamentares, como o deputado Miro Teixeira (PDT/RJ) passaram a tomar partido pela não convocação do jornalista aético. Miro Teixeira, longe dos tempo em que mirava bem, afirmou que o interesse de Collor é um atentado à imprensa e tem um caráter “persecutório”. Uma vingança, porque a Veja publicou uma entrevista com o irmão de Collor, cujo conteúdo serviu para fomentar o impeachment de Collor quando o mesmo era presidente.

“A função do jornalista é investigar. Jornalista de investigação conversa sim com pessoas próximas ao crime”, disse Miro Teixeira, defendendo o jornalista.

Se irmanando partidariamente no tema o senador Pedro Taques (PDT/MT) afirmou, para engrossar o coro “desmirado”, disse que Collor estava querendo fazer “um acerto pessoal” com a imprensa. Taques se referindo ao requerimento que Collor expediu à comissão para que se tenha acesso às gravações telefônicas entre Carlinhos Cachoeira e Policarpo, afirmou que “o requerimento tem inconstitucionalidade chapada.

Collor, em discurso no Senado, lembrou que Policarpo já havia prestado depoimento em outra CPI e no Conselho de Ética da Câmara, em 2005. No primeiro caso, na CPI da Loterj, e no segundo no processo de cassação do deputado André Luiz.

“É necessário que pincemos esses trechos para que fique comprovado um conluio entre Policarpo Junior e Carlinhos Cachoeira”, observou Collor.

Mas Policarpo tem ameaças aos seus bons pontos, comandados por Miro Teixeira. Deputados e senadores do Partido dos Trabalhadores se irmanaram com Collor que o agente conspirador da Veja seja convocado a depor na CPMI.

Para o deputado Paulo Teixeira (PT/MG), o pedido de Collor não tem a intenção “de investigar a imprensa”, mas sim apurar a possível conduta inadequada de Policarpo. Aí o deputado mostra consciência democraticamente reflexiva. As gravações mostram que Policarpo é íntimo do mafioso. E além de que, como jornalista policarpo trabalho fora dos princípios de um jornalismo disciplina ética. Tem currículo de jornalista de mercado que só entende a lei do lucro da empresa de seu patrão Civita.

Por sua vez, o senador Humberto Costa (PT/PE), disse que integrantes da comissão estão considerando Policarpo “intocável”.

“Parece que têm intocáveis aqui, mas não se enganem, tudo virá à tona”, refletiu o senador.

No final das contas o relator da CPMI, deputado Odair Cunha (PT/MG) não aceitou o requerimento de Collor para teracesso à todas informações dos colóquio íntimos entre o mafioso e o representante da mídia acéfala.

Policarpo não é imprensa, e se encontra longe de ser um jornalista isento democraticamente, já que seu “jornalismo” é puro capitalismo de mercado. Tem que ir à CPMI.

Publicado por AFIN em 02:43:09 | Link | Sem Comentários »

CONLUIO NA CPMI DO CONTRAVENTOR, CACHOEIRA, LIVRA GOVERNADORES E A DELTA COM DIREITO A MENSAGEM EM CELULAR

Durante as reuniões da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no dia de ontem a sociedade viu com temor e tremor a fragilidade dessa comissão. Requerimentos que pediam a convocação dos três governadores dos estados de Goiás, Marconi Perillo do PSDB, Agnelo Queiroz do PT, e Sérgio Cabral do PMDB, foram simplesmente todos frustrados.

Um conluio entre parlamentares da chamada oposição e da chamada situação simplesmente mostrou a fragilidade desta CPMI que vinha se mostrando com fôlego capaz de apresentar uma cor clara de democracia. Parlamentares advogaram em causa própria para livrar seus pares com direito a mensagens celulares como mostra a cena protagonizada pelo deputado petista Cândido Vaccarezza que candidamente mandou uma mensagem ao governador Sergio Cabral mostrando que suas relações não iam “azedar”. O que para o bem da democracia foi filmado pelas câmaras da TV SBT e foi ao ar para que a população saiba como anda a democracia de alguns políticos que simulam ter o que não tem: o princípio democrático.

“A relação vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso, e nós somos teu”, dizia a mensagem enviada pelo petista ao governador do Rio de Janeiro, amicíssimo do dono – ou ex – da Empresa Construtora Delta, Fernando Cavendish, cuja empresa encontra-se envolvida com as tramas corruptoras do mafioso Carlinhos Cachoeira.

A relação azedou com alguns petistas, mas não azedou com outros petistas e membros da oposição que também votaram pela não convocação do governador do Rio de Janeiro, porque também já se encontravam de olho no próximo conluio que era também salvar os governadores Perillo e Queiroz. Um conluio com peso mais petista e psdbista.

Salvos os governadores, foi a vez da Empresa Delta, cujo diretor Cláudio Abreu, aparece em várias gravações realizadas pela Policia Federal em conversas íntimas tramando negócios. A Delta que foi colocada à venda depois que apareceu nos braços de Cachoeira, é acusada de superfaturamento em obras do PAC, e obras no Rio de Janeiro. Daí a suspeita do envolvimento do governador Sérgio Cabral com a empresa. Cabral que já apareceu em vídeos aos festejos com a família Cavendish.

O requerimento que pedia a quebra de sigilo da Delta em todo o país foi negado pelo relator Odair Cunha (PT/MG) que afirmou que ainda não existem indícios suficientes para quebra de sigilo da empresa. A investigação vai se concentrar apenas na empresa na Região Centro-Oeste

“Há indícios evidentes de que essa empresa, a Delta, sob o comando do senhor Cláudio Abreu, serviu à organização criminosa. Na minha opinião, não há ainda indícios suficientes para quebra de sigilos, além de suas filiais no Centro-Oeste”, opinou Cunha.

Mas não é o que entende o senador Randolfe Rodrigues (POSL/AP) que tentou impedir a derrubada dos requerimentos da pauta.

“É um mal começo se nós aprovarmos esse sobretestamento”, observou lucidamente Rodrigues.

Publicado por AFIN em 02:35:22 | Link | Sem Comentários »

DEPUTADO LUIZ CASTRO MOSTRA NA ASSEMBLÉIA DO ESTADO DO AMAZONAS SINAIS DE CORRUPÇÃO ENVOLVENDO SECRETÁRIO DO GOVERNO

O deputado Luiz Castro (PPS) vai entrar com representação no Ministério Público Estadual (MPE) contra o pagamento abusivo de diárias pelo Governo do Estado para o secretário da Secretaria de Estado da representação do Governo em Brasília, Mário Manoel Coelho de Melo. De acordo com o Portal da Transparência da Sefaz-AM, o secretário chegou a receber, em 2012, R$11.193,60 (2012NE00090) por 1 diária de viagem a São Paulo, onde participou de reunião com o comitê Executivo local da Copa.

Ainda de acordo com a nota de empenho 2011NE00050, gerada em 03 de fevereiro de 2011 e divulgada no site da Sefaz-AM, o secretário Mário Melo também recebeu R$32.181,60 por 7 diárias de viagem a Manaus – o equivalente a R$4.597,37 por dia – no período de 02 a 08 de dezembro de 2010, para tratar de assuntos da representação do Governo do Estado em Brasília, junto ao gabinete do Governador, Casa Civil, Sefaz e TCE.

Outra nota de empenho que aponta abuso nos valores do pagamento de diárias ao secretário Mário Melo é a 2010NE00092, no valor de R$31.028,45, referente a 6 diárias em Manaus, para tratar de assuntos de interesse da pasta junto ao Gabinete do Governador, entre 27 de março a 1? de abril de 2010.

“As informações estão disponíveis para qualquer pessoa no Portal da Transparência da Sefaz, no link das despesas do Poder Executivo da representação do Governo em Brasília”, afirmou o deputado Luiz Castro, ao realizar, hoje, denúncia no plenário da Assembleia Legislativa do Amazonas.

Outra irregularidade apontada por Castro é o fato de Mário de Melo acumular dois cargos públicos, como secretário da Secretaria de Estado da representação do Governo do Amazonas em Brasília e servidor da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas.

O presidente da Aleam, deputado Ricardo Nicolau (PSD), disse que telefonou para Mário Melo e foi informado que o secretário é funcionário concursado da Assembleia de Alagoas, mas encontra-se licenciado. No entanto, segundo a portaria 0018/2012, publicada em 12 de abril deste ano, no Diário Oficial do Estado de Alagoas, Mário de Melo foi relocado, em 2012, para o setor de apoio legislativo da Assembleia Legislativa de Alagoas.

Cidadão do Amazonas

Recentemente o secretário Mário Manoel Coelho de Melo foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Estado com o título de “Cidadão do Amazonas”, proposto pelo líder do Governo na Casa, deputado estadual Sinésio Campos (PT).

*Enviado por Luis Castro

Publicado por AFIN em 02:27:52 | Link | Sem Comentários »

Neoliberalismo tingido de verde de olho na Rio + 20

Em entrevista à Carta Maior, a antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky adverte para os riscos do agenda da chamada economia verde na Rio+20. “O ambiente de crise financeira dos países ricos estaria jogando água no moinho da lógica neoliberal de enxugamento dos estados nacionais também na área ambiental e abrindo generosos parágrafos para o setor privado se credenciar como o principal gestor de um novo paradigma econômico e ambiental”, diz.

Rodrigo Otávio

Rio de Janeiro – A antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky faz parte do grupo de articulação da Cúpula dos Povos (evento das organizações não-governamentais que será realizado no Aterro do Flamengo em paralelo à Rio + 20) e tem acompanhado as negociações oficiais das Nações Unidas em Nova York para a redação do documento oficial a ser apresentado na Rio + 20.

O que ela tem visto não é animador. Em um ambiente de crise financeira dos países ricos, os rascunhos do documento abrigam a lógica neoliberal de enxugamento dos estados nacionais ao tratarem e formularem políticas ambientais, e abrem generosos parágrafos para o setor privado se credenciar como o principal gestor de um novo paradigma econômico e ambiental, nessa ordem de importância.

Em entrevista à Carta Maior, Iara classifica a Rio + 20 em geral e a Cúpula dos Povos em particular como momentos cruciais para, a partir de grandes mobilizações populares, questionar esse modelo de “economia verde” e as diferentes vozes iniciarem um processo longo, mas efetivo, de uma nova agenda ambiental e econômica para o século XXI.

O que está em disputa na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20?

É o modelo de desenvolvimento e as opções para um futuro de sustentabilidade para o planeta Terra. O que nós, da Cúpula dos Povos, defendemos é um modelo que significa uma crítica frontal a mercantilização e financeirização da vida. E somos totalmente favoráveis ao aprofundamento da ideia de bens comuns. Ou seja, bens água, bens ar devem continuar sendo bens comuns, que devem ser preservados e não podem ser privatizados e mercantilizados.

E como transformar essas críticas em ações?

Nós estamos há algumas décadas apresentando e constituindo ações e experiências concretas alternativas. Um exemplo bastante evidente é a agricultura familiar, que está relacionada diretamente às questões climáticas, de insustentabilidade, de expansão de gado e desmatamento, esse confronto que está colocado na agenda rumo a um modelo sustentável.

Nós sabemos que a agricultura familiar, a agroecologia, é responsável por 75% da comida que vai ao prato do brasileiro. Ou seja, é real e concreto que esses setores sejam financiados, sejam vistos como fundamentais e estratégicos para o desenvolvimento de uma política pública, porque eles geram empregos, fixam as pessoas no campo, produzem alimentos de qualidade, estimulam comércios locais e processos complementares de produção. É uma alternativa a um modelo que pensa só em grande escala, que pensa em termos de mercado, a plantar soja aqui para os animais lá na China comerem. É outra lógica, e é uma lógica de sustentabilidade, de valorização e de humanização. Estaremos o tempo inteiro defendendo essas alternativas na Cúpula dos Povos, em contraposição aquilo que está sendo defendido pelas grandes empresas e corporações.

Um dos pontos da agenda da Rio + 20 é a questão da governança global dentro desse rearranjo de sustentabilidade e desenvolvimento. O que está inserido aí? Quem vai gerir essa nova engrenagem, e para quem?

Essa é a grande questão. Hoje, da maneira como a coisa está colocada, quem vai gerir isso é fundamentalmente o Banco Mundial, que é uma instituição constituída para aprofundar e construir resposta a esse modelo que a gente vive hoje, que é um modelo que já se provou incapaz de dar solução inclusiva, afirmando o direito de todos e todas a uma vida digna.

Então são instituições financeiras e comerciais – OMC (Organização Mundial do Comércio), Banco Mundial e G-20, como uma instância política que vem formulando também sobre tudo isso, – que não correspondem à necessidade de democratização e participação para a construção de soluções que sejam de fato soluções que beneficiem à totalidade da população e a preservação do planeta. Assim, o que está hoje como cenário de governança global e quem está gerindo essas propostas são aqueles que vêm produzindo esse modelo que está falido.

O que nós queremos é pensar outras alternativas, outra arquitetura internacional que seja feita de forma democrática e reconhecendo a diversidade, as responsabilidades comuns porém diferenciadas dos países na produção deste modelo predador.

Os estados nacionais chegarão a assinar a transferência do poder de gestão ambiental para instituições como G-20 e Banco Mundial? Em quanto essa transferência é reversível? Qual o espaço de manobra para iniciativas como a Cúpula dos Povos interferirem nesse processo?

Eu estou acompanhando o processo oficial da ONU pela Cúpula dos Povos e o que eu estou vendo é um processo de aceleração de uma privatização de todas as definições que produziriam essa transição de um modelo predador para um modelo sustentável. Os estados estão se desobrigando e as grandes corporações se aproximando para serem as responsáveis e promotoras desses novos acordos…

…com documentos oficiais assinados?

Isso está lá no documento (N.R.: Documento oficial da ONU sendo rascunhado em Nova York para a Rio + 20). O documento fala claramente no preâmbulo e no primeiro capítulo sobre economia verde que o principal aliado para a transição de modelo sustentável é o setor privado. E todos os setores organizados dentro do setor privado já estão diretamente participando com propostas, inclusive no desenvolvimento daquilo que eles estão chamando de metas de desenvolvimento sustentável.

Outro detalhe que é fundamental é que nesse documento, que é um documento que tenta articular o pilar social, o pilar econômico e ambiental, ou seja, são três dimensões importantes de estarem aí articuladas, eles estão querendo retirar tudo aquilo que se refere e se afirma pelos parâmetros dos direitos humanos dentro dos direitos econômicos, sociais e culturais, que foram tratados em convenções que todos os países, exceto os Estados Unidos, firmaram.

Esses direitos obrigam os estados nacionais a serem os efetivadores das ações, portanto eles têm que garantir o máximo de recursos disponíveis, de forma progressiva e sem discriminação, para a efetivação desses direitos. No momento em que você tira esses direitos, você diz assim, “muito bem. Vamos universalizar a energia, vamos universalizar acesso a água e tal”. Quem é que vai fazer isso? Os governos não estão presentes, estão em crise, não têm dinheiro. É o setor privado.

Seria uma privatização dos órgãos internacionais de regulação e gestão?

Quando eles colocam uma proposta de que o setor privado é prioridade e de que os direitos serão retirados, você está dando chance e abrindo as portas para que as soluções sejam dadas “business as usual”, quer dizer, dentro dos padrões de negócios que são usados comumente e que já ganharam os governos, compraram os governos e agora estão comprando as Nações Unidas.

Isso, nós da Cúpula dos Povos somos absolutamente contra. Nossa vida não está à venda. Nossa natureza não está à venda. O raciocínio não pode ser esse, o raciocínio tem que ser “os estados têm obrigações, e eles têm que ser mediadores e têm que responder aos interesses públicos dentro de processos democráticos de participação em que todos e todas sejam beneficiados”.

Não é isso que eles estão fazendo. Por exemplo, existe uma proposta de um rascunho dentro das negociações para a Rio + 20 que está definindo quais serão essas tais metas de desenvolvimento sustentável que vão substituir as tais metas do milênio, que já foram uma redução de toda uma série de debates no campo dos direitos.

Então eles estão dizendo assim; “ah, em 2030 nós vamos dobrar o uso de energia renovável”. É tudo sempre em 2030! Ora, o uso de energia renovável no mundo não chega a 4% da energia utilizada por todas as populações do planeta. Dobrar significa 8%. É nada do ponto de vista de soluções concretas, rápidas, de redução do padrão de uso energético da matriz energética baseada em recursos naturais.

Os prazos são menores?

Nós estamos esgotados! A solução tem que ser aqui e agora, “era para ontem”, não é em 2030 você chegar a 50% de um percentual que é insignificante em relação ao tamanho do problema. Essas coisas todas estão lá nos documentos, estão em jogo e estão muito evidenciadas.

Há espaço para sermos otimistas sobre essa irreversibilidade da privatização dos recursos naturais? Só como exemplo, há dez anos a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) era dada como certa e hoje está morta e enterrada. Essa “economia verde” emplaca 2022?

Olha, eu acho o seguinte. Vamos ser otimistas. A gente tem que ter a utopia e tem que sonhar, mas o otimismo para mim está ligado a uma luta consciente, concreta e pragmática que a gente tem que fazer hoje e agora na nossa vida. A gente tem que se informar e a gente tem que mobilizar.

A Rio+20 vai ser um momento fundamental de mobilizar a população, de vir às ruas, de expressar posições às coisas que estão acontecendo, como por exemplo a privatização das Nações Unidas. Ou, por exemplo, não reconhecer a importância de uma outra institucionalidade internacional que de fato lide com esses três pilares, e que o econômico se submeta às necessidades e a dignidade de vida das populações.

O otimismo vem da minha esperança que a população mundial e a população do Rio de Janeiro, a população do Brasil, acorde para a importância de olhar para esse evento que parece ser mais um “eventozinho no Rio”, mas que não é, é um dos eventos mais importantes que definirão, e aí vem um outro otimismo, que eu acho que é aonde a gente pode influenciar a partir da nossa mobilização, a agenda futura dos próximos dez anos.

Quer dizer, como é que a gente vai, primeiro, impedir que esse acordo entre governos e setor privado se realize. E como é que a gente vai dizer “não, não, não. Reconhecemos a necessidade de um setor produtivo, mas que setor produtivo nós queremos? Que estado nós queremos?”. Como nós vamos nos mover para de fato fazer uma agenda futura que responda aos direitos, necessidades, qualidade de vida, e justiça ambiental, social e econômica que as populações têm?

Porque, veja bem, fazer mensuração de mudanças dos estados, dos países, caminhando para um modelo de desenvolvimento sustentável, tudo bem, todo mundo é favorável a isso. Só que, por favor, quem foi responsável historicamente pelo padrão desagregador, predador, que tem no mundo, não fomos nós. Participamos, proporcionalmente, com parcelas ínfimas se você comparar com o que é os EUA do ponto de vista de consumo de energia no mundo e na emissão de gases de efeito estufa etc.

Então, se a gente não fizer uma “metas de desenvolvimento sustentável” que seja para os países ricos, porque eles têm que mudar o padrão de produção e consumo, e obviamente nós também, com responsabilidades diferenciadas, não começaremos a avançar.

Há caminhos para se chegar a essa proposta de responsabilidades diferenciadas?

Aí o Princípio do Rio (documento aprovado na conferência ambiental das Nações Unidas em 1992 listando 27 princípios que reforçam a soberania dos estados nacionais na gestão dos recursos naturais dentro de uma conjuntura preservacionista, inclusiva e democrática), que foi um princípio aprovado na Rio 92, é fundamental, é estrutural, é um eixo que orienta o quê deve ser esse documento. Se esse documento retira isso, por exemplo, você vai estar destruindo a possibilidade de uma agenda que vai mudar efetivamente o padrão de produção e consumo.

O meu olhar positivo e otimista é que a gente consiga influenciar essa agenda, porque nós não vamos resolver isso aqui e agora no Rio de Janeiro, mas sim determinar um processo global, porque aí sim, essas coisas vão mudar, essas coisas vão vir à tona, a consciência pública vai emergir e buscar um novo caminho planetário para os nossos desafios do momento.

Carta Maior

Publicado por AFIN em 02:20:56 | Link | Sem Comentários »

‘Discípula’ Dilma homenageia ‘mestre’ Maria da Conceição Tavares

A economista recebeu o prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia de 2011 das mãos da presidenta Dilma Roussef e disse estar muito otimista com o Brasil. Emocionada, Tavares revelou que foi Darcy Ribeiro quem lhe convenceu a “virar brasileira de fato”, decisão da qual se orgulha: “Ele disse que ao contrário da Europa, que ele não tinha grandes esperanças, com toda razão, o Brasil ele achava que iria ser capaz de construir uma sociedade mais homogênea, multirracial e mais democrática”.

Vinicius Mansur

Brasília – A economista Maria da Conceição Tavares foi exaltada na cerimônia em que a presidenta Dilma Roussef lhe entregou o prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia de 2011. Na abertura do evento, na manhã desta quinta-feira (17), o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, escalou a economista “no time de expoentes da intelectualidade que interpretaram a sociedade brasileira”, ao lado de Gilberto Freire, Celso Furtado, Caio Prado, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e Ignácio de Rangel.

“Não é qualquer país que tem o privilégio de contar com uma mulher com a sua força, uma intelectual com o seu brilho e uma militante com a sua lucidez”, elogiou.

O ministro ressaltou as contribuições de Tavares para a formação do pensamento econômico brasileiro, em especial na caracterização do crescimento da economia brasileira nos anos 1960 e 1970 e nas causas da ausência de crescimento nas duas décadas posteriores. Ele também destacou a maneira enfática e consistente com que a economista defendeu a transição do já falido modelo de produção industrial visando a substituição de importações para um modelo auto-sustentável, só possível com investimentos decisivos do setor público. ”A história recente mostrou a falência dos governos em que os ‘booms’ da economia são ditados pelo mercado”, apontou.

Raupp ainda destacou o papel de Tavares na formação de gerações de economistas, que há décadas influenciam ou mesmo definem as políticas públicas no país, e também elogiou o que chamou de “brasilidade”. “Mesmo que tenha nascido em Portugal, Maria da Conceição comporta-se como uma brasileira visceral, autêntica, exemplar para todos os demais brasileiros e brasileiras”, concluiu.

Ao assumir a palavra, emocionada, Tavares revelou que foi Darcy Ribeiro quem lhe convenceu a “virar brasileira de fato”, decisão da qual se orgulha:

“Ele disse que ao contrário da Europa, que ele não tinha grandes esperanças, com toda razão – olha o que está acontecendo, tragédia no meu continente originário -, o Brasil ele achava que iria ser capaz de construir uma sociedade mais homogênea, pluriracial e mais democrática, que ia ter a particularidade de ser a primeira sociedade deste estilo nos trópicos (…) e eu quero dizer que nesse particular, eu estou muito otimista, foi bom ter virado brasileira, foi bom ter feito a luta e é muito bom estar na companhia da minha amiga e querida discípula, a presidenta Dilma e tantos que estão aqui.”

Maria da Conceição Tavares também contou que durante o mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resolveu ir para a política “porque não adiantava mais falar nada, até porque a imprensa não nos dava nem um capítulo, tinha cara de neoliberalismo” e caracterizou este período “estranho, porque os participantes daquele governo eram historicamente progressistas” mas mudaram a Constituição – “aquela que nos custou tanto esforço” – em aspectos vitais. “Vocês imaginam o sofrimento que foi, eu arrebentei minha coluna foi aí”, disse arrancando gargalhadas do público.

Tecendo rápidos comentários sobre a conjuntura econômica mundial, a economista elogiou o Brasil por não ter ”entrado em parafuso” com a “crisona que está aí”, dando os créditos deste feito aos dois governos Lula e a continuação com o governo Dilma. “Espero que ela chegue ao fim do seu mandato com a crise vencida e com os caminhos e a estratégia de desenvolvimento desenhada em bom termo. Ou seja, espero morrer feliz por ser brasileira e infeliz por ser europeia. Isso lamento muito, mas acho que não vou conseguir passar a crise européia”, comentou com seu humor particular.

Por sua vez, a presidenta Dilma Roussef iniciou seu discurso considerando-se uma discípula de Tavares e elogiando seu compromisso com o desenvolvimento do Brasil e da América Latina. “Compromisso que sempre cumpriu tratando a economia como ela deve ser tratada: como economia política”, salientou.

De acordo com a presidenta, não houve momento importante na história do país, nas últimas décadas, sem as considerações da “nossa professora”:

“Nós hoje não admitimos mais a possibilidade de construir um país forte e rico dissociado de melhorias das condições de vida de nossa população, nem tampouco acreditamos mais na delegação da condução de nosso crescimento exclusivamente às forças de auto-regulação do mercado. Crença, aliás, que Maria da Conceição Tavares sempre, corretamente, criticou”.

Prêmio
O Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia completa 30 anos e é realizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em a parceria da Fundação Conrado Wessel e da Marinha do Brasil. Na edição de 2011, o prêmio contemplou a área de Ciências Humanas, Sociais, Letras e Artes.

Maria da Conceição Tavares é a segunda mulher a receber o prêmio, a primeira foi a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz.

Tavares é graduada em Matemática pela Universidade de Lisboa e em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual é professora Emérita. Fez mestrado na Universidade de Paris II e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia pela UFRJ. Aeconomista também lecionou nas universidades Estadual de Campinas (Unicamp), Latinoamericana de Ciencias Sociales da Argentina, Nacional Autonoma do México, Pontifícia Universidade Católica do Chile e na Fundação Getúlio Vargas (FGV), entre outras. Foi consultora em instituições como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Instituto Nacional de Investigação Científica (Inic), de Portugal.

Entre os prêmios e honrarias recebidas estão o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, Ordem de Bernardo O Higgins, Gran Official, do Governo do Chile, Oficial da Ordem de Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Ordem ao Mérito do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Prêmio BNDES de dissertação de mestrado.

Foi deputada federal pelo PT entre 1995 a 1999.

Fotos: Antonio Cruz/ABr

Carta Maior

Publicado por AFIN em 02:14:38 | Link | Sem Comentários »

Quinta-feira, Maio 17, 2012

Carlos Fuentes: escrever para ser

Muito mais que um grande escritor, a América perdeu um homem de seu tempo – de seus tempos. Que soube defender suas idéias com tamanha inteireza, com tamanha elegância, com tamanha firmeza, que mesmo os que tantas vezes discordaram dele poucas vezes deixaram de respeitá-lo. Fuentes acreditava no futuro. No futuro da América Latina, no futuro no ser humano. Acreditava que, em algum momento desse nosso eterno recomeçar, nós, da América Latina, deixaríamos de recomeçar e começaríamos de verdade. O artigo é de Eric Nepomuceno.

Eric Nepomuceno

Vejo algumas fotos em preto e branco. E me detenho em uma, feita em algum dia incerto da Barcelona daqueles anos 70, mostrando um Vargas Llosa alto e sorridente, um Carlos Fuentes um tanto formal, e um Gabriel García Márquez cabeludo e com bigodes que parecem desenhados a carvão. Fuentes ainda fumava: na mão esquerda, posta fraternalmente sobre o ombro de García Márquez, aparece o cigarro. Ali estão eles: Vargas Llosa aparece à esquerda, Fuentes está no centro, García Márquez à direita. Exatamente o avesso do que a vida reservaria aos três, ou do que os três fariam de suas vidas.

Na foto, os três são jovens, e parecem confiantes, e ocupam o inverso do espaço que o tempo e a realidade se encarregariam de colocar em seus devidos lugares: quem à direita, ao centro, à esquerda.

Volta e meia imagino como será ter sido ser jovem, ou melhor, ser um jovem Fuentes, um jovem Mario Vargas, um jovem García Márquez naqueles anos de turbilhão. Uma vez perguntei isso a Fuentes. Estávamos em São Paulo, caminhávamos ao léu com Silvia Lemus, sua mulher, para cima e para baixo por aquelas paralelas da rua Augusta, e ele me contava coisas. Dizia assim: ‘É que a gente era muito jovem, e acreditávamos nas mesmas coisas, e tínhamos uma confiança enorme no futuro’. Insistia: sua amizade com García Márquez, que vinha de 1961, era a qualquer prova. E acabei sendo testemunha disso, dessa verdade.

E lembro que algum tempo depois, coisa de ano ou ano e meio, ao entrar num restaurante italiano em Buenos Aires, topei com ele e com Silvia. E ele, como sempre de uma elegância sem fim – e, atenção: estou me referindo à elegância como postura diante da vida –, quis continuar uma conversa que eu nem lembrava qual era.

Era a conversa sobre nossos respectivos anos jovens. Disse ele, lembrando de Vargas Llosa, de García Márquez, de Cortázar: ‘A vida segue, e às vezes, nos separa. Bom mesmo é quando você consegue discordar de tudo e fazer com que nada separe os afetos, a amizade’. Tentou isso a vida inteira. Às vezes – com Cortázar, com García Márquez –, conseguiu. Aliás, sem maiores esforços.

Quando me refiro a ele como um homem elegante, me refiro a um pensamento que conseguia ser ao mesmo tempo ágil e contido, que não se limitava às barreiras que muitas vezes nos impomos a nós mesmos. Acreditava no que acreditava.

Acreditava no futuro. No futuro da América Latina, no futuro no ser humano. Acreditava que, em algum momento desse nosso eterno recomeçar, nós, da América Latina, deixaríamos de recomeçar e começaríamos de verdade. E escrevia assim: acreditando. Não há dois livros dele que sejam iguais. Porque, em seu ofício, Carlos Fuentes era como na vida: sempre disposto a recomeçar, a reinventar. Sua obra é desigual, porque ao longo da vida somos desiguais. Escrevia cada livro como se fosse o primeiro. E por isso mesmo ele foi tantos, como tantos somos nós em nosso dia-a-dia.

A única coisa que se manteve sempre em cada palavra, cada frase que desenhou, foi a fé no futuro. Jamais acreditou em limites e fronteiras, quando escrevia. E nem quando vivia.

Qualquer um que tenha a palavra escrita como matéria prima, e a memória como guia dos tempos, saberá descobrir no autor de ‘A região mais transparente’, ou ‘A morte de Artemio Cruz’, ou de ‘Terra Nostra’, de ‘Gringo Viejo’, um eterno contemporâneo, um companheiro de viagem, um parceiro de sonhos e ousadias. E uma testemunha de desesperanças e esperanças, de tudo aquilo que poderíamos ter sido e que não fomos.

Fuentes dizia que, mais do que pela obra dos grandes historiadores, dos grandes sociólogos, dos grandes antropólogos – e ele foi amigo de vários dos grandes –, a verdadeira história nossa era escrita por escritores.

Lembro bem da vez em que ele disse que escrever literatura não era um ato natural: era como dizer que a realidade, não é suficiente. Que precisa de outra realidade, a da imaginação. E que isso era perigoso. Assim viveu, assim escreveu.

Muito mais que um grande escritor, a América perdeu um homem de seu tempo – de seus tempos. Que soube defender suas idéias com tamanha inteireza, com tamanha elegância, com tamanha firmeza, que mesmo os que tantas vezes discordaram dele poucas vezes deixaram de respeitá-lo.

Eu perdi um amigo distante. Que teve uma vida coalhada de dramas tenebrosos – a ele e a Silvia foi reservada a pior das dores de um ser humano, a de enterrar seus filhos – e conseguiu continuar caminhando. E sorrindo.

Lembro de Carlos Fuentes como alguém que não se deixou abater. Que não deixou de sorrir e de acreditar.

Certa vez, ele me disse que escrevia para continuar sendo. E, assim, foi.

Fotos: O escritor mexicano Carlos Fuentes, no centro da imagem, junto ao peruano Mario Vargas Llosa e ao colombiano Gabriel García Márzquez (El País)

Carta Maior

Publicado por AFIN em 02:40:05 | Link | Sem Comentários »